terça-feira, 20 de dezembro de 2011

DOIS POEMAS DE DONIZETE GALVÃO

AQUÉM DO HOMEM

Os corpos já nascem

em débito.

A dívida consolida-se

como uma couraça

que adere à pele,

contamina o sangue,

sem que haja lugar

para o desejo.

Quando este surge,

irrompe

como uma facada

na jugular

em beco escuro.


FILOCTETES

Num átimo,

a picada da serpente.

Abre-se a ferida

que nunca sara

que não supura.

Coleção de escaras

que saem à unha

e renascem

novas crostas.

Ri da chaga

aquele que nunca

foi atingido.

A dor:

empecilho.

A dor:

veneno.

Ninguém quer

sua companhia

(Do livro O homem inacabado. São Paulo: Portal Literatura, 2010)

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